Segundo o Jornal de Negócios Online, de hoje, 20, «a
Direcção-Geral dos Impostos quer celebrar protocolos com a
ADSE e com as seguradoras para passar a ter acesso às
despesas de saúde dos seus “clientes”».
De acordo com a notícia referida, o objectivo da DGCI «é
alimentar as bases de dados de modo a que o Fisco possa
preencher, de antemão, esta informação nas declarações de
IRS, em substituição dos contribuintes. Um processo que só
deverá ser possível a partir de 2008».
Desde que a DGCI descobriu as quase infinitas possibilidades
da informática e do controle de dados pessoais que esta
proporciona, parece ter-se apoderado daquela Direcção-Geral
uma pulsão descontrolada, visando directamente a privacidade
dos cidadãos.
Todos nós sentimos hoje o bafo quente do fisco no nosso
pescoço e isso não é mau, por si mesmo: é necessário que os
contribuintes tenham uma percepção clara de que o Fisco está
atento ao cumprimento das suas obrigações fiscais.
Como sempre, o problema ocorre quando quem controla começa a
entusiasmar-se (no caso da DGCI, diria mesmo deslumbrar-se)
com o poder e com as possibilidades de bisbilhotar onde
queira, o que queira.
Todos temos presente o recente caso da intenção de a DGCI
pretender obrigar à inscrição na declaração de IRS da
compra, em 2005, de qualquer automóvel ligeiro novo, em
clara violação da lei.
Era um caso claro de bisbilhotice fiscal. Os dados
pretendidos não serviam para nada mais do que para
bisbilhotar a vida dos contribuintes.
Surge agora, pouquíssimo tempo depois, mais um claro caso de
bisbilhotice fiscal. E que nem sequer revela grande
inteligência argumentativa.
O objectivo, é-nos dito, é que “o Fisco possa preencher, de
antemão, esta informação nas declarações de IRS, em
substituição dos contribuintes”.
Argumento fraco este. Com efeito, as despesas de saúde podem
surgir de outras fontes, por exemplo, do enfermeiro, da
farmácia, de serviços e de medicamentos não comparticipados.
Estas despesas são comuns à grande maioria dos cidadãos e a
sua existência não consta dos registos da ADSE e das
seguradoras. Para que servirá, então, ao Fisco, preencher
antecipadamente uma declaração de rendimentos num campo –
despesas de saúde – que estará quase sempre errado, porque
subavaliado? De nada, evidentemente.
De resto, nenhum cidadão é obrigado a mencionar na sua
declaração de IRS qualquer despesa ou todas as despesas de
saúde que realiza. Pode simplesmente pretender manter
privadas determinadas despesas de saúde. Porque superior
razão haverá o Estado de aceder a tal informação contra a
vontade do próprio? Nenhum cidadão é obrigado a revelar ao
Estado que subscreveu seguros de saúde. Porque superior
razão haverá o Estado de aceder a tal informação contra a
vontade do próprio?
A resposta: trata-se apenas de bisbilhotice fiscal.
E o que se torna preocupante é que este comportamento de
bisbilhotice fiscal começa a formar um padrão sustentado.
Este comportamento encontrará provavelmente explicação
plausível no fascínio que sempre os brinquedos novos
provocam nas pessoas e nas instituições.
Mas, no caso da DGCI, este fascínio está a tornar-se
perigoso.
Já começa a ser tempo de dizer “basta!” às intromissões na
privacidade dos cidadãos que não são mais do que o exercício
de um “direito à curiosidade” que a DGCI não possui e que a
Constituição e as convenções internacionais lhe proíbem em
absoluto.
E espera-se que a Comissão Nacional de Protecção de Dados
tome posição sobre este comportamento continuado da DGCI.
É inaceitável que continuemos todos reféns do espantalho do
“combate à evasão e fraude fiscais” e que, reféns deste
espantalho, consintamos em despudoradas invasões de um dos
mais sagrados direitos de qualquer ser humano: o direito à
privacidade.
"Mil Novecentos e Oitenta e Quatro" e o "Big Brother"
são ficção. A DGCI é bem real.